Em formação

As Cruzadas Francas da Espanha (R. de Beaumont)


As cruzadas no Oriente continuam a produzir uma quantidade de obras de estudiosos ou do público em geral, de qualidade e interesse às vezes questionáveis. Por outro lado, o que aconteceu ao mesmo tempo na Espanha, e ainda mais o que veio antes, raramente é discutido, com exceção da história de um Al Andalus muitas vezes fantasiado ou caricaturado. A Reconquista é pouco conhecida na França, especialmente durante o início da Idade Média, quando os vínculos com a história da França são numerosos. A obra de René de Beaumont, As Cruzadas Francas da Espanha, sua ambição é contar a história da Reconquista de um ponto de vista franco e fazer a conexão entre o que ele chama de cruzadas francas e as cruzadas "clássicas" na Terra Santa.

Quais limites cronológicos?

O subtítulo da obra diz "790-1228", mas na verdade a história começa com a conquista da Espanha visigótica pelos muçulmanos, e até um pouco antes. René de Beaumont faz seu prólogo, contando como os árabes e seus contingentes berberes aproveitaram as divisões entre os visigodos para pisar na Península Ibérica e nunca mais sair dela por mais de sete séculos. No final deste prólogo, ele insiste no bolsão da resistência cristã na Galiza e nas Astúrias de onde partirá “O longo movimento para reconquistar o país”. Já podemos debater o uso dos termos “árabes”, “berberes”, “muçulmanos”, “visigodos” e “cristãos”, depois de “francos” ou “sarracenos”, que sempre nos constituem um problema quando abordamos esta questão. período. O ângulo escolhido pelo autor, veremos novamente sobre o título do livro, parece no entanto, deve ser o ângulo "religioso", que é discutido no século VIII.

Para o final do período abrangido, René de Beaumont anuncia 1228, mas é 1235, e o fim da conquista das Baleares por Aragão, apresentado como a última cruzada da Espanha.

Um plano cronológico, vários temas

O historiador escolhe o mais simples e o mais claro com duas partes cronológicas principais.

O primeiro (oito capítulos) cobre os séculos VIII, IX e X, na Espanha (cristã e, em parte, muçulmana), e na Gália, voltando até mesmo à Borgonha. O objetivo, e é relevante, é mostrar as conexões, nessa época, entre o que acontecia na Espanha visigótica, que se tornou Al Andalus, e na Gália franca, que estava em vias de se tornar carolíngia. O autor evoca obviamente a batalha de Poitiers (com de passagem algumas atualizações historiográficas interessantes, sobre o assunto da existência ou não da bolsa de Autun por exemplo), bem como a criação da Marcha de Espanha (futura Catalunha ) Mas trata de outros assuntos pelo menos tão interessantes e muito pouco abordados neste tipo de trabalho: a pirataria sarracena e o muitas vezes esquecido século X (no que diz respeito ao "campo cristão", é claro). Além disso, permite-nos conhecer melhor pessoas nem sempre muito conhecidas, como Bernard de Septimanie ou Bernard de Plantevelue. Finalmente, René de Beaumont insiste ao longo de seu livro para não falar apenas de confrontos guerreiros; evoca, portanto, relações entre cristãos e muçulmanos em Al Andalus, intercâmbios diplomáticos, a visão do outro, conversões, ...

A segunda parte (sete capítulos) vai ao cerne da questão, o período mais clássico da Reconquista. No entanto, o autor opta novamente por ângulos relativamente originais, como a ligação com o Oriente ("os cruzados espanhóis na Palestina"), ou destinos pessoais (o duque trovador, Raimundo de Borgonha, ...). Ele dá grande ênfase a Aragão e à Catalunha, enquanto as obras da Reconquista (embora esta não seja realmente uma) são geralmente mais focadas em Castela. Permanece na lógica do vínculo com os francos. O principal fio condutor de seu livro é, entretanto, a cruzada, e veremos que isso pode levantar questões.

O problema do título e o uso do termo "cruzadas"

Se quiséssemos simplesmente resumir a tese de René de Beaumont, diríamos que ele queria demonstrar que as Cruzadas Orientais nasceram primeiro na Espanha, ao mesmo tempo em que insistia no papel central dos francos nessa luta, e então na Reconquista. Não podemos negar efetivamente a ligação entre o que aconteceu na Espanha e depois na Terra Santa, e por várias razões. A convocação de Clermont por Urbain II em 1095 é pronunciada dez anos após a captura de Toledo pelos cristãos, e muitos cavaleiros que vão partir para a Palestina já lutaram na Espanha, e não menos porque se pode contar entre eles Raymond de Saint-Gilles, conde de Toulouse e futuro conde de Trípoli. Acima de tudo, a captura de Barbastro em 1063-1065 foi feita sob a indulgência do Papa Alexandre II (e não Alexandre III, como está escrito na obra), e muitos historiadores consideram que foi a primeira cruzada, além dos debates intermináveis ​​sobre a origem e definição deste termo.

O problema com o livro de René de Beaumont é que ele sugere que as Cruzadas começou com a conquista da Espanha visigótica pelos árabes e seus aliados berberes. Ora, como sabemos, por exemplo, da Batalha de Poitiers, não havia nada estritamente religioso no confronto entre os beligerantes antes do século XI, quando o papado entrou na dança. A ambigüidade da tese do historiador pode ser vista no uso dos termos apontados acima (“Cristãos”, “Árabes”, etc.), mas especialmente no das “Cruzadas”, uma vez que ele agrupa sob este termo todos os campanhas dos aragoneses e castelhanos dos séculos XI ao XIII, incluindo a conquista das Baleares. Às vezes é relevante, como para a batalha de Las Navas de Tolosa (1212), às vezes menos. Isso dá uma impressão de confusão de termos e abordagens, ainda mais quando notamos que para a primeira parte, o termo "cruzada" entretanto não é mencionado! E, em contradição com seu título, o próprio René de Beaumont, no capítulo XV (Contribuições e fim das cruzadas espanholas), escreve: “Durante os primeiros séculos, as guerras na Espanha se apresentaram mais como lutas entre visigodos ou francos refratários, por um lado, conquistadores árabes e berberes, do outro, do que como guerra entre cristãos e muçulmanos”. É isso mesmo mas, neste caso, por que escolher este título que dá a impressão de uma cruzada contínua entre os séculos VIII e XIII que, além disso, continuaria no Oriente?

Por fim, lamentamos que a conclusão seja apenas um resumo da obra com algumas aberturas, e não um acerto da tese e dos ângulos escolhidos pelo autor, o que teria permitido ver um pouco mais claramente e para fazer o debate avançar. Da mesma forma, poderíamos retornar a certas passagens que tratam do "aspecto civilizador" do Islã nos francos. Na verdade, o ângulo civilizacional está agora um pouco obsoleto e, embora seja louvável por parte do autor abordar as trocas e, especialmente, as transferências de conhecimento, ele está apenas arranhando a superfície do assunto.

Nossa opinião

Essas reservas parecem pesadas e devemos colocá-las em perspectiva, pois os resultados estão longe de ser negativos. Em primeiro lugar, não devemos nos deter no título da obra que, do uso da palavra “cruzadas” aos limites cronológicos, não faz justiça ao conteúdo, que é um pouco mais complexo, rico e matizado. O livro não é propriamente um livro sobre a Reconquista, nem sobre a relação entre latinos (francos, reinos espanhóis, ...) e muçulmanos, e menos ainda sobre Al Andalus, o que às vezes o confunde nas perspectivas escolhidas. No entanto, trata de assuntos muito raramente abordados em publicações públicas em geral, seja a Marcha Espanhola ou a história da Catalunha e de Aragão, bem como o destino dos cavaleiros francos que anuncia o dos Cruzados de Leste. Podemos, portanto, saudar esta abordagem. O livro também contém ricos apêndices (mapas, glossário, árvores genealógicas) e uma bibliografia temática muito completa (inclusive contendo as fontes) que nos permitirá ir mais longe. Por fim, acrescentemos que o todo é facilmente lido, como uma história de aventura.

Podemos, portanto, ficar constrangidos, até incomodados com certas abordagens e termos usados, mas isso não põe em causa o interesse desta obra, que os fãs da história deste período podem rever com retrospectiva crítica, mas também com prazer.

- R. de Beaumont, As Cruzadas Francas da Espanha (790-1228). Quando o Ocidente descobriu o Islã, Tucano, 2011.


Vídeo: Resumo de História: CRUZADAS Débora Aladim (Setembro 2021).