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A rainha na Idade Média. Poder feminino (M. Gaude-Ferragu)


Com exceção de algumas figuras famosas como Isabel da Baviera ou Ana da Bretanha, as rainhas do final da Idade Média francesa muitas vezes permaneceram na sombra da história. Em seu último trabalho publicado pela Éditions Tallandier, Murielle Gaude-Ferragu ressuscita essas rainhas frequentemente esquecidas, como Jeanne d'Évreux, Jeanne de Bourbon, Charlotte de Savoie e muitas outras. O historiador universitário mostra assim que eles desempenharam um papel essencial para a Coroa da França e, por isso, se questiona por sua influência e suas ações sobre a realidade de seu poder na época.

O status da rainha no final da Idade Média

Nos primeiros dias da dinastia Capetian (Xe-XIIe século), a rainha do reino da França participa do governo ao lado de seu marido (como Consors Regni), tendo os mesmos poderes por delegação e, consequentemente, desempenhando um papel político importante como evidenciado pelas cartas reais da época. Com a sua exclusão da sucessão real graças à famosa lei sálica surgida durante as crises dinásticas do início do século XIV.e século, a rainha se encontra excluída do poder, participando do governo apenas excepcionalmente durante uma regência supervisionada. Ela, portanto, não reina como uma Isabel I na Inglaterra ou uma Isabel de Castela na Espanha. No entanto, ela não é apenas "a esposa" do rei e tem muitos papéis na Corte, na Coroa e na dinastia. São esses diferentes papéis e sua aplicação com a ajuda de numerosas anedotas históricas que o autor desta obra, dividida em três partes principais, pretende mostrar.

Como tal, a primeira parte explica o significado de se tornar uma rainha. Se o casamento lhe confere o título, a consagração por unção confere-lhe a plenitude de seus poderes e lhe confere uma dimensão espiritual. Ela obtém assim uma dupla legitimação, reforçando seu status de rainha, que não se limita apenas a "carregar o sangue da França", mesmo que ali seja seu primeiro dever, ou seja, dar um herdeiro homem ao reino. A segunda e terceira partes seguem, enfocando os poderes reais e simbólicos da rainha. Modelo de virtude, piedade e devoção, ela intercede entre o rei, lugar-tenente de Deus na terra, e o seu povo, como uma mãe amorosa que exerce a sua caridade e dá graças. Estamos, portanto, longe da tradicional imagem misógina da época veiculada pela Igreja e acentuada a partir do século XIII.e século e a redescoberta de Aristóteles associando as mulheres ao "sexo mais fraco". Mas, ao mesmo tempo, os clérigos fazem da rainha o espelho da Virgem Maria, rainha do céu ao lado de Cristo. Ela, portanto, permanece associada ao poder de seu marido real, desempenhando um papel político, notadamente diplomático, como uma “Dama da Paz” negociando tréguas entre soberanos e príncipes durante a Guerra dos Cem Anos.

Nossa opinião

Se seu livro está repleto de anedotas históricas específicas de cada rainha do período coberto, Murielle Gaude-Ferragu não oferece um panorama simples de retratos individuais com o objetivo de restaurar a memória a essas rainhas esquecidas. Pelo contrário, saindo da complexidade da definição da condição de rainha, o autor consegue fazer uma síntese clara e precisa da natureza do poder e das funções desta última na Corte e no reino da França. Melhor ainda, ela responde brilhantemente à pergunta: o que era ser rainha no final da Idade Média.

Murielle Gaude-Ferragu, a Rainha na Idade Média. Power in the Feminine, século 14-15, Éditions Tallandier, Paris, 2014.


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